21/12/2015

DEBRUM


não me penso mundo
nem vastidão de carne e osso
(pássaros fazem do instante
a brevidade necessária à vida)
me penso planície e fosso
guardo um não ao que posso
de qualquer fundura ser;
se árvores sorrissem,
eu seria chuva?
quantas peles na palavra,
na vida, meu cioso debrum
esse bordar para nada e nenhum

 

DIA FINDO


uma lua fina
deita-se sobre as dez toneladas
do dia
a rua dorme seu leão enorme 

silêncio!
- hospital do mundo

03/12/2015

ESCÁRNIO


gosto quando me mordes
sob os acordes do meu escárnio
e porque também és carne
contrario a tua ordem
de me quereres a priori
retalho-te em meus desejos
cego o amor que não vejo 

gozo com tua mandíbula
buliçosa de palavras e fúrias
e porque também és fera
em círculos teu cheiro me apodera
de júbilos e nesse escárnio
me festejas num escarro

PELAS BORDAS, A VIDA



ainda não morro, a vida
comida pelas bordas
dá gosto ao sal da angústia
o dia preso às cordas
sustém a matilha do susto
de virar lama dessa armadilha
se já não corro, a vida
ocorre com tudo aos poucos
do muito que resta ao nada
de existir a ferro até o oco

20/11/2015

O LAGO ESCURO



como pode ser tão alto
o estranho altar escarlate
de se querer por dentro
quando fora o olhar duro
lacrimeja sobre o tédio
de não ver o lago escuro
que dentro aturde e separa
o que fora apenas aclara
como pode ser tão casto
o degrau aveludado da emoção
quando fora o pouco de corpo
falta dentro a alma e declara
fundo seu próprio escuro
no lago de se mentir claro

O HOMEM E A ÁRVORE



o homem monta a árvore
como se fosse seu cavalo
de promessas e felicidade
peça por peça o ilude
como montasse outro ser
tão perfeito que ameaça
o que há de mais humano
entre o homem e a árvore
enquanto o tempo pondera
qual dos dois primeiro devore

02/11/2015

EPITÁFIO POR UM FIO

procurado vivo

AOS VIVOS



deponho meus mortos
esqueço-os para que vivos
contem seus restos de ossos
em seus gélidos silêncios
ecoantes sobre o túmulo
que acumula esses vivos
tão próximo dos mortos

01/11/2015

SER ALGUÉM



Ser alguém, a não ser ninguém
querer algo além do que se tem
como nascido de carne e osso
ser dado nome a ninguém
Ser alguém, mesmo sendo outro
ser rastejante que se pensa astro
e rouba de dentro de cada ninguém
o melhor da parte que se tem
Ser alguém, sair da pele de ninguém
se vestir de outro ser conveniente
aos olhos e ao gosto desse alguém
sem saber que nunca foi ninguém

17/10/2015

SUJEITO ABSTRATO


acordo mais abstrato
sem o objeto de ser sujeito
oculto aos sentidos que nada sentem
sem sujeito sou menos breve
adstrito a uma substância leve
que se evola ao menor contato
comum aos dois gêneros
que definem o que não somos
o fato é que me sinto abstrato
sem estar sujeito ao objeto
identificado com algo de secreto
assim fico mais transparente
de um modo mais consequente
sem o concreto rude do existir
mas o contrato da vida em vigor

11/10/2015

CABEÇAS


penso como cavo buracos
na cabeça, a vida                           
exige de tudo ter cabeça
se perdida, ainda tivesse,
tentar poderia a cabeça
dos dedos
do pênis
do rio
da ponte
do prego
que tudo tem cabeça
mesmo se não pensa
como penso cavo buracos

06/10/2015

VEIO ME VER A VIDA


veio me ver assim meio perdida
um dia desses a clamada vida
seu dedo médio pôs bem no meio
de uma chaga cara e antiga
veio me ter com sua guarida
numa manhã qualquer a vida
seu peito seu colo a me embalar
como se eu fosse um presente
doado por algum deus errante
veio e quis ficar em mim possuída
como mãe e mulher mais devidas
e deixou-me no ser cravada sina
a dizer que num incerto dia
sem aviso nem despedida ela se ia
atender ao chamado da matrona
a indelével senhora das picardias
veio me ver de passagem a vida

26/09/2015

HEBDOMADÁRIO


domingo
decomponho-me em bocejos e vagares
me amo mais e fico comigo
segunda-feira
te odeio de amor e nem te vejo sair
parece que tudo acinzela dentro
terça-feira
penso em te querer por uns séculos
mas o dia tritura a carne dos sonhos
quarta-feira
discuto política, amenidades e desejo matar
chego tarde, antes do pão depois sol
quinta-feira
um pássaro me adentra, a lua se enrudece
escrevo este poema, o tempo não me para
sexta-feira
tudo se depreende, vou embora de mim
não sei se vivo ou se morres com a noite
sábado
é como se tudo fosse o que não é e deveria
traço planos e curvas, a vida ao redor

19/09/2015

O PODRE DA MAÇÃ


                       (a uma mulher juvenil)                     
 
o tempo de saber maçã
jubilosa e desejada
e o depois
na maçã prospera
o podre que a macera 

o tempo de sabor maçã
chega antes do paladar
e o depois
que a maçã prouvera
o podre sutil a pondera

15/09/2015

FINITIVO


amanhã será tarde
Inês já é morta
eu também

e todas as mulheres
que não vivi

RETRATO ANTIGO


A infância
empedernida na parede 

E eu fiquei assim
tão sério
com um jeito aéreo
de quem perdeu
o voo e o ovo
da inocência

 

11/09/2015

TUDO VEZES NADA


foram-se os cabelos
os colares e as cóleras
teu cheiro impune
os olhos sem lume
meu rosto de vidro
foram-se as palavras
essas pedras mudas
rasgadura do tempo
a culpa na coleira
os latidos da razão
foram-se os nós
em pingos de lágrimas
os cortes e os decotes
os amigos punhais
os dias banais
foram-se os langores
almas e despudores
dez luas desabadas
tudo em todas as coisas
de menos vezes nada

07/09/2015

AUTOFAGIA


 
sinto mais o peso de mim
fardo de espírito e corpo
com que me alimento;
bebo-me aos poucos
apreciando meu gosto
(o amargo doce ser)
que só ao ébrio dá prazer;
mastigo-me sóbrio e lento
sendo tudo que se come,
minhas partes postas sem nome
cru, sem molho, sem odores
distingo melhor meus sabores
satisfaço a fome de mim;
de sobremesa saboreio a alma
faço a digestão em calma,
me tenho plenamente meu,
para jantar, guardo o eu.

03/09/2015

MUDEZ NECESSÁRIA II


pedem meu silêncio
nego e rasgo
o verbo em silêncio 

na ponta da língua
esconde o silêncio
sua palavra de ordem 

então, que fique claro
o que calo do silêncio

31/08/2015

MUDEZ NECESSÁRIA


não falo de amor
meu silêncio
me reprime 

por isso mudo
amo
sem nada dizer
ao silêncio

26/08/2015

COLOSSO


lava agora teu osso
da alma até o pescoço                               
que o amor é horto
de um desejo cardo
lava teu osso e te depura
a carne ainda  é caça
de um prazer hirto
na fera que preparas
lava teu osso como fosses
água rasa e calabouço
e te escorre flácida
pelas coxas frias da vida
lava teu osso que resta
ao colosso dessa festa
logo teu mundo passa
nada fica nem te retrata

22/08/2015

MAIS OS MENOS


nada sempre mais
grave alegre e acre
tudo mais os menos
repetem o massacre 

nada sempre mais
real que nossos ossos
tudo mais os menos
no amor e nos bolsos 

nada sempre mais
na paz que se revolta
tudo mais os menos
contam a vida em gotas 

tudo ao menos mais
nada mais somenos
o poder dos mais
o querer dos menos

18/08/2015

POEMASSOMBROSO


minha sombra
há de passar
a pé de per si
descalça perto daqui
a cantar como sabiá
pra se ouvir
o que não se sabe
há de passear
pelas sombras
das palmeiras
que já não há
sem fazer barulho
esguia e maquiada
cheia de orgulho
como se estivesse
mal-assombrada
minha sombra
livre do meu corpo
a me levar ao topo
mais alto da vida
e de lá me lançar
num trato sem troco
cansada de ser tudo
e mais um pouco
disso que me sombra

12/08/2015

ÚLTIMO DESEJO



realizar  todos os desejos
é o meu último desejo 

mesmo que ao pão da vida
às vezes falte o queijo

01/08/2015

A BALA E A LANÇA


não sei mais entristecer
a alegria é um soco
na balança do mundo:
um leão ou uma pessoa,
tantos fazem próprias suas leis;
engulo os ângulos e as retas
de um modo de ver a bala
e a lança do mundo;
não sei mais entristecer
a alegria tem outro cheiro
de leão e pessoas
que cheiram mal a felicidade
na balança do mundo

25/07/2015

CÃO MUNDO


de posses, o mundo
cão que me late
abandonado de tudo 

abana o rabo a quem o abate
os sãos do mundo
fazem dele acicate
 
de ossos, o cão
cata do mundo
suas pulgas de estimação

 

11/07/2015

O SER HUMANO


O ser humano é um dado do plano
ainda em rascunho, meio secreto
não se sabe bem o valor ao certo
do custo desse barro e seu dano
por enquanto é um caro projeto
de conquistas, sangue e ufanos
a se pensar livre para querer tudo
a ser imune na forma e conteúdo
das fraquezas, poderes e enganos 

O ser humano é esse fulo fulano
aquele sicrano de muita façanha
a se tecer homem como aranha
e aqueloutro que se enternece
a cada beleza que lhe acontece
mas ergue sobre toda a existência
a mesma pedra de fé e descrença
com que emoldura a sua espécie
do tempo faz seu próprio alicerce

 

 

 

 

 

04/07/2015

SER ME AGASTA


ser me gasta
seu cheiro, sua pele rugosa
sua beleza rigorosa
cravada na alma, sem rosto
ser sempre agrava
a mesma crueza colada ao corpo
seu jeito calado a tocar uma música
sem notas feita de mudez e retórica
no mesmo escuro aberto pela eternidade
onde o tempo prostrou-se em deidade
ser me agasta
sua envergadura de pó e circunstâncias
pesa como a gordura de um buda
é uma agonia que se desnuda
nessa condição mesma, desgasta.

20/06/2015

DUAS RUGAS


a maior tristeza da melhor
fundura da vida precipita-se de um abraço
de um beijo cheio de palavras
por isso, o amor se excede numa flor
sobre nossa carcaça de homens
que se repartem em mortes
para sermos ainda crianças 

guardo em mim duas rugas de corações
que me trancaram, suas ruínas
seus dentes vorazes de paixão
e como é doce a dor de ter sido
cruel e precário

24/05/2015


 
NOME AOS DOIS 

 

viver
já é elementar meu caro
tão pueril como a poeira
pregada nos templos
efêmera não, a faca que mata
a vida já sem elementos
torna-se nenhuma coisa sem nome
mas a faca que vive dá nome aos dois:
quem mata e a vida de quem morre.

10/05/2015

POR ONDE ANDA G. VIEIRA?


POEMA DE SÉRGIO LIMA SILVA
 
 
será que a palavra o abandonou
e o deixou no meio do deserto
da pele de algum desconhecido perto?
será que a cicatriz da sua boca fechou
e não há como sangrar sua fala?
será que o seu corpo assumiu a forma
que não se pode dizer nesse momento
e se transformou em pensamento?
será que as praias o tornaram parte
ao ministrar aulas de ondas
entre as suas pregas?
será que a dor abriu e o engoliu
como se a dor sentisse mais fome
do que o próprio nome?
será que se tornou uma esfera
e está rolando como rolam as perdas?
Será que anda utilizando outras ancas?
Será que é eterno e o olhar de perto
De quem é efêmero não o enxerga?

 

 

NUMAS E NOUTRAS


(Em louvor ao poema de Sérgio L. Silva)
 

Eis que ando numas e noutras ondas
Como já não se diz nem se faz
Não como coisa qualquer a boiar:
Um excremento, por exemplo.
Esquiando sem braços e pernas, sem asas
Pelo aqui das gentes e por aí do mundo
Arquejando como peixe fora das palavras
E do que se espera como certo
Meio eu meio outro a prumo torto mesmo
Nas praias da vida porque é no mar minha ida
E vinda desse lugar sem rumo e sem chegar
Perambulando pelo vago quando cheio
O copo das águas desse abril sem brio
Nem portas que me abram às novas lidas
Vou mais que venho e se acaso me acham
Talvez seja eu mais uma onda que se espraia
Antes que noutra onda me contraia

04/01/2015

OS SUPORTARES


 
suporto te suportares
sobre os pés que removem
a lavra de tantos suportares
suporto pessoas que suportam
esse fardo de carne e sangue
sobre os cavalos do mundo
suporto palavras para ler essa lida
e esgoelo o que te suporta
o dorso negro luzidio da vida
suporto tuas portas de vigília e medo
abrirem bocas blasfemas
a te quererem fome e fêmea
suporto te suportar nesses dias
de garras dissimuladas à espera
de quem suporta lamber as patas
de sua própria fera
suporto febres e cios de mãos
arrancadas ao inesperado
quando suportas sedes e frios
de amores planejados
te suporto para me suportar
outros suportares

 

NÃO TE AMO TE AMO


 
não te amo quedas de mágoa
papéis espalhados chaves perdidas
peixes e luas te amo
não te amo acordar cedo
palavras iras e esperas
o café quente as frutas te amo
não te amo quartos e camas desertos
cabelos colares os brancosnegros te amo
a solidão não te amo sobejos
de quando nos entramos te amo
unhas lábios o corpo sabe alturas
não te amo ânsias lágrimas comiserações
os pesos do mundo não te amo
meras perdas podres ciúmes
jorros de emoção te amo
montanhas pedras e poentes
te amo sala e tapete febre cigana
poemas flauta e violino te amo
os quadros na parede a fera da casa solta
o jardim te amo não te amo fim
sombra espessa todas misérias
te amo mar aromas vida por se fiar

GERÚNDIO


 
que ponta o fio de se perder
me aponta outras tramas? 

guardo-me nos agasalhos da noite
nas dobras dos guardanapos
sobre mesas amanhecendo
serás meu último gerúndio?
viver é sempre gerúndio 

me procuram as mãos
de alguma crença sem sol
almas de gerânio e girassóis
algo de vida para e se desfia
em lutas esguichadas nos muros 

inaugurando-me

O MAR E EU


e vieram os longes de alguém
a espuma das ondas e essas caras
velas de outras belezas
penduradas nesse azul
o mar é muitos infinitos
esse mar sou eu
essas falésias são minhas heresias
inundo-me

ARTESÃO


para fazer a vida
declaro facas ao canto
e trespasso o osso
da cara fortuna  

para fazer a vida
ergo-me ferro e halo
vertigem e deleite
nos caules da morte 

para fazer a vida
abro fendas no tempo
entalho-me o inefável
áulico com o vário