04/01/2015

OS SUPORTARES


 
suporto te suportares
sobre os pés que removem
a lavra de tantos suportares
suporto pessoas que suportam
esse fardo de carne e sangue
sobre os cavalos do mundo
suporto palavras para ler essa lida
e esgoelo o que te suporta
o dorso negro luzidio da vida
suporto tuas portas de vigília e medo
abrirem bocas blasfemas
a te quererem fome e fêmea
suporto te suportar nesses dias
de garras dissimuladas à espera
de quem suporta lamber as patas
de sua própria fera
suporto febres e cios de mãos
arrancadas ao inesperado
quando suportas sedes e frios
de amores planejados
te suporto para me suportar
outros suportares

 

NÃO TE AMO TE AMO


 
não te amo quedas de mágoa
papéis espalhados chaves perdidas
peixes e luas te amo
não te amo acordar cedo
palavras iras e esperas
o café quente as frutas te amo
não te amo quartos e camas desertos
cabelos colares os brancosnegros te amo
a solidão não te amo sobejos
de quando nos entramos te amo
unhas lábios o corpo sabe alturas
não te amo ânsias lágrimas comiserações
os pesos do mundo não te amo
meras perdas podres ciúmes
jorros de emoção te amo
montanhas pedras e poentes
te amo sala e tapete febre cigana
poemas flauta e violino te amo
os quadros na parede a fera da casa solta
o jardim te amo não te amo fim
sombra espessa todas misérias
te amo mar aromas vida por se fiar

GERÚNDIO


 
que ponta o fio de se perder
me aponta outras tramas? 

guardo-me nos agasalhos da noite
nas dobras dos guardanapos
sobre mesas amanhecendo
serás meu último gerúndio?
viver é sempre gerúndio 

me procuram as mãos
de alguma crença sem sol
almas de gerânio e girassóis
algo de vida para e se desfia
em lutas esguichadas nos muros 

inaugurando-me

O MAR E EU


e vieram os longes de alguém
a espuma das ondas e essas caras
velas de outras belezas
penduradas nesse azul
o mar é muitos infinitos
esse mar sou eu
essas falésias são minhas heresias
inundo-me

ARTESÃO


para fazer a vida
declaro facas ao canto
e trespasso o osso
da cara fortuna  

para fazer a vida
ergo-me ferro e halo
vertigem e deleite
nos caules da morte 

para fazer a vida
abro fendas no tempo
entalho-me o inefável
áulico com o vário