26/09/2015

HEBDOMADÁRIO


domingo
decomponho-me em bocejos e vagares
me amo mais e fico comigo
segunda-feira
te odeio de amor e nem te vejo sair
parece que tudo acinzela dentro
terça-feira
penso em te querer por uns séculos
mas o dia tritura a carne dos sonhos
quarta-feira
discuto política, amenidades e desejo matar
chego tarde, antes do pão depois sol
quinta-feira
um pássaro me adentra, a lua se enrudece
escrevo este poema, o tempo não me para
sexta-feira
tudo se depreende, vou embora de mim
não sei se vivo ou se morres com a noite
sábado
é como se tudo fosse o que não é e deveria
traço planos e curvas, a vida ao redor

19/09/2015

O PODRE DA MAÇÃ


                       (a uma mulher juvenil)                     
 
o tempo de saber maçã
jubilosa e desejada
e o depois
na maçã prospera
o podre que a macera 

o tempo de sabor maçã
chega antes do paladar
e o depois
que a maçã prouvera
o podre sutil a pondera

15/09/2015

FINITIVO


amanhã será tarde
Inês já é morta
eu também

e todas as mulheres
que não vivi

RETRATO ANTIGO


A infância
empedernida na parede 

E eu fiquei assim
tão sério
com um jeito aéreo
de quem perdeu
o voo e o ovo
da inocência

 

11/09/2015

TUDO VEZES NADA


foram-se os cabelos
os colares e as cóleras
teu cheiro impune
os olhos sem lume
meu rosto de vidro
foram-se as palavras
essas pedras mudas
rasgadura do tempo
a culpa na coleira
os latidos da razão
foram-se os nós
em pingos de lágrimas
os cortes e os decotes
os amigos punhais
os dias banais
foram-se os langores
almas e despudores
dez luas desabadas
tudo em todas as coisas
de menos vezes nada

07/09/2015

AUTOFAGIA


 
sinto mais o peso de mim
fardo de espírito e corpo
com que me alimento;
bebo-me aos poucos
apreciando meu gosto
(o amargo doce ser)
que só ao ébrio dá prazer;
mastigo-me sóbrio e lento
sendo tudo que se come,
minhas partes postas sem nome
cru, sem molho, sem odores
distingo melhor meus sabores
satisfaço a fome de mim;
de sobremesa saboreio a alma
faço a digestão em calma,
me tenho plenamente meu,
para jantar, guardo o eu.

03/09/2015

MUDEZ NECESSÁRIA II


pedem meu silêncio
nego e rasgo
o verbo em silêncio 

na ponta da língua
esconde o silêncio
sua palavra de ordem 

então, que fique claro
o que calo do silêncio