20/11/2015

O LAGO ESCURO



como pode ser tão alto
o estranho altar escarlate
de se querer por dentro
quando fora o olhar duro
lacrimeja sobre o tédio
de não ver o lago escuro
que dentro aturde e separa
o que fora apenas aclara
como pode ser tão casto
o degrau aveludado da emoção
quando fora o pouco de corpo
falta dentro a alma e declara
fundo seu próprio escuro
no lago de se mentir claro

O HOMEM E A ÁRVORE



o homem monta a árvore
como se fosse seu cavalo
de promessas e felicidade
peça por peça o ilude
como montasse outro ser
tão perfeito que ameaça
o que há de mais humano
entre o homem e a árvore
enquanto o tempo pondera
qual dos dois primeiro devore

02/11/2015

EPITÁFIO POR UM FIO

procurado vivo

AOS VIVOS



deponho meus mortos
esqueço-os para que vivos
contem seus restos de ossos
em seus gélidos silêncios
ecoantes sobre o túmulo
que acumula esses vivos
tão próximo dos mortos

01/11/2015

SER ALGUÉM



Ser alguém, a não ser ninguém
querer algo além do que se tem
como nascido de carne e osso
ser dado nome a ninguém
Ser alguém, mesmo sendo outro
ser rastejante que se pensa astro
e rouba de dentro de cada ninguém
o melhor da parte que se tem
Ser alguém, sair da pele de ninguém
se vestir de outro ser conveniente
aos olhos e ao gosto desse alguém
sem saber que nunca foi ninguém