16/12/2016

MANEQUINS


ainda não me sei
vestido no teu corpo
como vestes tua beleza
nas roupas sujas do mundo
ainda não me vesti
da tua pele costurada
nos modelos de vida
precisamos provar
nossas camisas de força
coser pregas no coração
alinhavar nossos desejos
à nudez disfarçada de moda
e desfilar nossa emoção

LEVE


apreendo na tarde o silêncio
de ouvir pássaros, a casa
toda contorcida  de desejos
o tempo sem as mãos

sobre a rede
dispenso os atavios do mundo
assim me sinto fasto navio
leve ancoradouro

19/10/2016

POR QUE INDAGO?


o que será do fim
quando nada houver a terminar
depois de mim
de quem será a última vez
na pele sem cor nada a sentir
onde ficará o fim
depois que eu fluir
no chão ou no céu perfurado
de súplicas e olhos estarrecidos
quem terá o derradeiro sonho
e tomará o último trem
a derradeira palavra quem lerá
e fará a última pergunta
o que será da morte do fim       

                     ?

05/10/2016

OS ANOS INCOMPLETOS


ainda não nasci
e já me completam os anos
tão incompleto estou
de corpo e alma
que nenhum registro
comprova meu nascimento
nem palavra ou qualquer coisa
outra forma denuncia meu rastro
mas insistem em me parabenizar
pelo que existe em mim
se assim for, seja o que será
mas ainda faltam muitas eras
para eu nascer agora

25/09/2016

O VÁRIO


o melhor lugar da vida
é sem portas, sem  dentro
não há vazios, só o vário
desse rio que compassa
o estreito laço de nós
o melhor lugar da vida
não tem penumbra
e a luz dança dissoluta
pelas salas do ser
só o vário deslumbra
o melhor lugar da vida
não tem chão nem altura
o infinito é liso e sustém
o cabide onde o ser se pendura
tudo se adentra, só o vário gera


04/09/2016

SONHOS TAMBÉM EXPLODEM


sonhos explodem bilhões
de tantos outros sonhos
de amantes e desalmados
sonhos explodem como bombas
de realidades e utopias atômicas
como um pum de razões
sonhos explodem como artifício
dos fogos que celebram ideias
se precipitam dentro dos poemas
mas não sabemos acordar dos sonhos
que nos tornam menos sonhadores

27/08/2016

PONTE FINAL


Assente na velha cadeira
De balanço em balanço cada coisa
Se move dentro dos meus olhos
A vida também se remove ao me ver
Ainda mordaz comendo o tempo
Que me sublima pela varanda
Ganhei e perdi todo o jogo de ser
O arrojo de colocar uma vírgula
Entre prazeres e derrocadas
Se a vida não é um final do ponto
Parar o que vem ou atravessar a ponte
Talvez seja o modo de me surpreender

20/08/2016

HORA DO JANTAR


não temos mais palavras para o jantar
o silêncio comeu tudo
o último a falar ainda tem fome
restam aos que calam desesperados
alguns resíduos deixados pelo silêncio
ao redor da mesa se olham sedentos
entupidos de estupidez repartem entre si
o pão da angústia de quererem todas
as palavras que acabaram para o jantar
assistem agora ao lento mastigar do silêncio
um silêncio de faca e gado
que os fazem infames e obrigados

13/08/2016

ÂMAGO


quando tu tanto
carne penetras
eu quanto secreta
anima me estanco

é tudo tão âmago
poço onde me tranco
até sentir o amargo
que me alarga lhano


07/08/2016

ESQUECER


quero sempre me esquecer
da jura de ser e do fiel fazer
no passado já dei de ombros
joguei tudo nos escombros
das ruas das pessoas e palavras
aquele armário já não abro
do amanhã tardio esqueci
lembrar apenas do que posso
um tanto de alma um quanto de ócio
e que tal lembrança passe
como um vapor de emoção
sempre me esquecer
no liso espelho do presente
que logo devemos quebrar
para outra alegria premente

01/08/2016

AGOSTO


o cachorro não está louco
os lobos nem tão solitários
os homens estão mais, aos poucos
fingindo seus calafrios
os cães escolhem seus postes
os homens escodem suas patas
e buscam nas costas de outros
uma farsa para a melhor resposta
cães e lobos sem couro privilegiado
os homens com pele de aço
e pulgas de vidro ainda ameaçam;
neste agosto as pragas já não pasmam
mais um desgosto, só espasma

29/07/2016

DÚVIDA


e se me devorasses,
por onde eu sairia
de ti?

AMORADÁVIA


ficou em mim largo o teu rastro
teu susto pálido no meu rosto
esse gosto na língua de amoradávia
se era o corpo tua melhor dádiva
como se dão a luz e o crepúsculo

ficou em mim o teu músculo
contraído no busto íncubo da saudade
sem o gasto tempo de amoradávia
nas noites sobejadas pelo chão do quarto
minguante onde enterramos nossas luas

ficou em mim o teu hálito baço
na carnadura amolecida das manhãs
como se a lâmina de nós posta em amoradávia
restasse de todas as tentações no entalhe
secreto que fazemos por dentro de nós

22/07/2016

SOBRE UM FUNDO PRETO


não sendo todo nem parte, oco de ti
faço-me meu próprio recheio
palavra e corpo apenas me estampam
sobre um fundo preto;
inevitável aclaro as razões
que teus olhos ilusionam
e permaneço com o tosco azo
despedaçando em outro caos
a maravilha de não ter cor
na negrura que me substancia
sobre um fundo preto

08/07/2016

LITANIA ROMÂNTICA


secaram o sangue dos poemas
toda tosse romântica
da tuberculosa poesia
dessas mortes arrancaram palavras
e grudaram nas paredes da eternidade
souberam enfeitar de elegias
o fétido féretro da rebeldia
mas ainda direis, ouço tossir uma palavra
nos pulmões edemáticos da noite
ouvir direis, o soluço de lágrimas coaguladas
depois de toda hemorragia romântica
por quem não sei nem devo me matar

07/06/2016

ELOS DISPERSOS


a noite coaxa
os carros estão mudos
as paredes surdas urram
o dia ladra
os cães estão mudos
as pessoas mudas cegam
o mundo mudo fala
tudo se acomoda na surdez
à noite calam gritam
as pessoas falam mudas
elos dispersos eles mudam
a cegueira das pessoas
o dia cego cega
a vida segue surda
o mundo muda mudo

01/06/2016

EU TODO


            sou eu todo a palavra
lira tortuosa de um canto em brasa
nervo despedaçado na mordaça
            sou eu todo a palavra
carne devorada do verbo grave
crosta que matura o ser e encouraça
            sou eu todo a palavra
tranca arrebentada pelo grito bravo
víscera exposta no meio da sala
            sou eu todo a palavra
tição aceso no verso que se destrava
devassa pedra no mar de quem se acala

28/05/2016

ENIGMA EM TRÊS FACES


Porque não sabes do ser de mim,
                 eu me delato:
                 mélico alfenim

Porque não bebes a seiva de mim,
                  eu me sacio:
                  báquico carmim

Porque não miras as três faces de mim,
                  eu me invento:
                  pórtico marfim

Ser é cárcere que o não-ser encerra


21/05/2016

CANTIGA PARA NINAR A CIDADE DO HOMEM




dorme dormes o homem
na ordem da cidade
que o ordenha e morde

argueiro orbitário
no olho da rua
onde putas pululam
sem pulôver nem love

dorme durma o homem
no ubre da cidade
que o desmama e cobre

tua sombra óssea de humano
nessa sordidez de pasto e bosta

15/05/2016

MAIS REAL


minha alma sobre o sofá
a descansar de mim
parece mais real que o corpo
me carrega para onde um lugar
chama-se eu quando somente eus
porque o plural de mim é mais real
que o singular de ser
suporta o que me inexisto

encher o copo de mim
e derramá-lo tantas vezes
assim é mais real

A SEGUNDA PELE


a outra pele dita segunda
se pensa antes da primeira
esta que se rende ao toque
a outra serve para troca
e fica além do que se sente
à flor dos apelos evidentes
a primeira pele te devora
e se mostra na cara do tempo
a outra decora sentimentos
nenhum arrepio a alcança
não arranha nem desbota
com as unhas do tormento
a segunda pele é a primeira
a disfarçar a velha peleja
do que se é e o que se deseja

07/05/2016

À DOCE VIDA


açucaras a vida, mas ainda não sabes
como as plumas que decoram a razão
perdem a cor na morte lenta dos dias
sob a espessa cortina da tua ilusão;
e se ao te contemplar, ó vida
afasto por segundos tua mão veloz
distingo esse palco onde encenas
o afã dos que te acreditam plena
e em teus pés regam flores pela graça
de se sentirem algo quando nada ter
além do vento frio de tua beleza
rasgando o véu sobre a feliz carcaça

02/05/2016

DESMAIO


veio maio sem mais
nem menos desmaio
da dor de saber-se nada
sem mês sem meios
maio veio como aio
dos poucos mortais
vivos em desmaios
por terem demais
todos os maios
para tão desiguais


do e-book: “DEVORAGEM”

29/04/2016

ABISMÁTICO


em alguma parte de mim
despedaço-me lá fora de ti
no chão das ruas, nas coisas do fim
por toda parte arrancada de mim
meus estilhaços em tuas migalhas
escorro-me gotas lá fora de tua farsa
que lavas quando suja e cavas quando rasa
depois das palavras e do teu corpo
os ossos do silêncio pendurados na sala
até que se rompa a casca do medo
e do meu abismo lances novas tristezas

09/04/2016

O LADO MAIS LONGE

o lado mais distante
às vezes tão perto, não diz tanto      
quantos passos faltam ao meu coração
para chegar ao teu longe
da boca até o desejo o corpo
faz o beijo mais distante
o lado mais cortante
não é o que a solidão tem de gume
e mesmo no corte cega
o longe do lado perto se pune
e anuncia da miséria teu ser
de pouco sol que nunca sossega

08/03/2016

MAIS GENTE


estás mais gente
já és teu celular
teus relógios
tua roupa de grife
tens a melhor parte do bife
tudo do mais desejável
para se ser mais gente
estás mais aderente
à mobília, aos carros
és o melhor da família
tua alma deixou o barro
reinventou-se no plástico
te elevou ao mais ático
dos seres superiores
provaste outros sabores
as cores de outras gentes
andaste pelos mundos sãos
saíste do fundo do coração
e agora caíste nas redes
a mostrar o branco dos dentes
inegável, estás mais gente

 

CORPO APOUCO


meu corpo não compreende
outro corpo que se estende
na via pública, no leito de morte,
por isso quer entrar e sair do teu
como num breve himeneu;
assim incorpora-se a um corpo
que se contorce e transcende
para entender como o corpo
se apouca dentro de outro

01/03/2016

GOTA SERENA

serena a gota de ser
que te condena 

a gota de poema
que te envenena 

e nada mais serena
a gota de vida venera

SÓS



alegre e grave
o dia 

solitário sol
na praça vazia 

breve o dia
em que a solidão 

não terá mais
companhia

 

22/02/2016

DÉDALOS


céu incorpóreo, desses homens cálidos
cheios de certezas nos dedos das mãos
velozes em seus cavalos de razão e sordidez
adestram os dédalos do quinto cavaleiro
a quem se paga com pragas da existência
nossos mais doces infernos arrogo
como se bebe e cospe o intolerável
dos amores e das resignações usuais

02/02/2016

O ÁSPERO DAS COISAS


esse odor de vazios, e nada me falta
coleciono olhares, rostos para outros
ignoro que alma vem depois
do cansaço e sentires toscos
o áspero das coisas tudo satisfaz
em pertencências e vaguezas
que ao nada angular desprezo

HUMORTO


riam antes dele que ria
agora imóvel e dócil
como se fácil desse
à morte uma plástica alegre;
ria como de si mesmo
e de todos apesar de vivos
não sabem rir da morte

23/01/2016

07/01/2016

EU DIFUSO



o tempo seus dedos e fusos
faz sabedor um eu difuso
de todas as certezas a mais crua
comida nas fartas fomes da vida
que o ser medroso regurgita
para não saber o sabor da desdita

EU RECLUSO



nos ferros-velhos da vida
guarda-se um eu recluso
ignorado e todo retorcido
a se negar o que deveria ter sido
mais que pedra um escaravelho
prenda do ser que o fez de relho

EU CONCLUSO



uma alma cheia de furos
espera lá fora um eu concluso
faltando todos os parafusos
remendos e quinquilharias
que o ser vaidoso parodia
da vida inservível para uso