28/05/2016

ENIGMA EM TRÊS FACES


Porque não sabes do ser de mim,
                 eu me delato:
                 mélico alfenim

Porque não bebes a seiva de mim,
                  eu me sacio:
                  báquico carmim

Porque não miras as três faces de mim,
                  eu me invento:
                  pórtico marfim

Ser é cárcere que o não-ser encerra


21/05/2016

CANTIGA PARA NINAR A CIDADE DO HOMEM




dorme dormes o homem
na ordem da cidade
que o ordenha e morde

argueiro orbitário
no olho da rua
onde putas pululam
sem pulôver nem love

dorme durma o homem
no ubre da cidade
que o desmama e cobre

tua sombra óssea de humano
nessa sordidez de pasto e bosta

15/05/2016

MAIS REAL


minha alma sobre o sofá
a descansar de mim
parece mais real que o corpo
me carrega para onde um lugar
chama-se eu quando somente eus
porque o plural de mim é mais real
que o singular de ser
suporta o que me inexisto

encher o copo de mim
e derramá-lo tantas vezes
assim é mais real

A SEGUNDA PELE


a outra pele dita segunda
se pensa antes da primeira
esta que se rende ao toque
a outra serve para troca
e fica além do que se sente
à flor dos apelos evidentes
a primeira pele te devora
e se mostra na cara do tempo
a outra decora sentimentos
nenhum arrepio a alcança
não arranha nem desbota
com as unhas do tormento
a segunda pele é a primeira
a disfarçar a velha peleja
do que se é e o que se deseja

07/05/2016

À DOCE VIDA


açucaras a vida, mas ainda não sabes
como as plumas que decoram a razão
perdem a cor na morte lenta dos dias
sob a espessa cortina da tua ilusão;
e se ao te contemplar, ó vida
afasto por segundos tua mão veloz
distingo esse palco onde encenas
o afã dos que te acreditam plena
e em teus pés regam flores pela graça
de se sentirem algo quando nada ter
além do vento frio de tua beleza
rasgando o véu sobre a feliz carcaça

02/05/2016

DESMAIO


veio maio sem mais
nem menos desmaio
da dor de saber-se nada
sem mês sem meios
maio veio como aio
dos poucos mortais
vivos em desmaios
por terem demais
todos os maios
para tão desiguais


do e-book: “DEVORAGEM”