29/07/2016

DÚVIDA


e se me devorasses,
por onde eu sairia
de ti?

AMORADÁVIA


ficou em mim largo o teu rastro
teu susto pálido no meu rosto
esse gosto na língua de amoradávia
se era o corpo tua melhor dádiva
como se dão a luz e o crepúsculo

ficou em mim o teu músculo
contraído no busto íncubo da saudade
sem o gasto tempo de amoradávia
nas noites sobejadas pelo chão do quarto
minguante onde enterramos nossas luas

ficou em mim o teu hálito baço
na carnadura amolecida das manhãs
como se a lâmina de nós posta em amoradávia
restasse de todas as tentações no entalhe
secreto que fazemos por dentro de nós

22/07/2016

SOBRE UM FUNDO PRETO


não sendo todo nem parte, oco de ti
faço-me meu próprio recheio
palavra e corpo apenas me estampam
sobre um fundo preto;
inevitável aclaro as razões
que teus olhos ilusionam
e permaneço com o tosco azo
despedaçando em outro caos
a maravilha de não ter cor
na negrura que me substancia
sobre um fundo preto

08/07/2016

LITANIA ROMÂNTICA


secaram o sangue dos poemas
toda tosse romântica
da tuberculosa poesia
dessas mortes arrancaram palavras
e grudaram nas paredes da eternidade
souberam enfeitar de elegias
o fétido féretro da rebeldia
mas ainda direis, ouço tossir uma palavra
nos pulmões edemáticos da noite
ouvir direis, o soluço de lágrimas coaguladas
depois de toda hemorragia romântica
por quem não sei nem devo me matar