27/08/2016

PONTE FINAL


Assente na velha cadeira
De balanço em balanço cada coisa
Se move dentro dos meus olhos
A vida também se remove ao me ver
Ainda mordaz comendo o tempo
Que me sublima pela varanda
Ganhei e perdi todo o jogo de ser
O arrojo de colocar uma vírgula
Entre prazeres e derrocadas
Se a vida não é um final do ponto
Parar o que vem ou atravessar a ponte
Talvez seja o modo de me surpreender

20/08/2016

HORA DO JANTAR


não temos mais palavras para o jantar
o silêncio comeu tudo
o último a falar ainda tem fome
restam aos que calam desesperados
alguns resíduos deixados pelo silêncio
ao redor da mesa se olham sedentos
entupidos de estupidez repartem entre si
o pão da angústia de quererem todas
as palavras que acabaram para o jantar
assistem agora ao lento mastigar do silêncio
um silêncio de faca e gado
que os fazem infames e obrigados

13/08/2016

ÂMAGO


quando tu tanto
carne penetras
eu quanto secreta
anima me estanco

é tudo tão âmago
poço onde me tranco
até sentir o amargo
que me alarga lhano


07/08/2016

ESQUECER


quero sempre me esquecer
da jura de ser e do fiel fazer
no passado já dei de ombros
joguei tudo nos escombros
das ruas das pessoas e palavras
aquele armário já não abro
do amanhã tardio esqueci
lembrar apenas do que posso
um tanto de alma um quanto de ócio
e que tal lembrança passe
como um vapor de emoção
sempre me esquecer
no liso espelho do presente
que logo devemos quebrar
para outra alegria premente

01/08/2016

AGOSTO


o cachorro não está louco
os lobos nem tão solitários
os homens estão mais, aos poucos
fingindo seus calafrios
os cães escolhem seus postes
os homens escodem suas patas
e buscam nas costas de outros
uma farsa para a melhor resposta
cães e lobos sem couro privilegiado
os homens com pele de aço
e pulgas de vidro ainda ameaçam;
neste agosto as pragas já não pasmam
mais um desgosto, só espasma