06/05/2017

PARALELOS E MERIDIANOS



passo rente aos meus subterrâneos
sem tocar a muralha do mundo
meu fundamento sem paralelos
destoa dos meridianos da vida
deixo-me ao largo da misericórdia
cruzo ruas e chego ao fim
algo de circular na vida pegajosa
ao corpo como a alma ao centro
desta cidade terrível e caolha
corto a linha que me liga ao equador
das sensações, e há ecos na dor
daqueles que cospem no chão das virtudes
planos não, nem retas me levam
à superfície dos meus subterrâneos
sigo sob o frio perfurante do anos
e não me vejo pender do fio do acaso
viver tem paralelos e meridianos

SELVAGEM



os animais que se tocam se matam
pelo mesmo amor dos eternos
como os que falam verdades
e estragam o céu com seus podres
os animais que falam, calam mais
outros animais entre selvagens
que correm todos os dias
apressados atrás da vida e vivem
como se não perdessem mais o de menos
os animais animam os que morrem
como o bom ladrão, antes selvagem

O CAVALEIRO



no quarto luxuoso das palavras
dormem sonhos, um copo de sangue
e teu último nome
se não sei mais do canto
enredo árias rudes de alguma paixão
cavaleiro das noites sem rosto
me queres mais corte da faca que fui,
com as agulhas do amor costuras mágoas
por isso cavalgo os atalhos do teu rumo
e não te sigo, nem me prossegues

07/04/2017

O QUE SE GUARDA



as balas guardadas no teu corpo
agradam aos que guardam dinheiro 
e tudo o que não se sente nem se vê
os corpos guardados de balas
se acumulam como tesouros
dos que expelem rancores
as balas guardadas no teu corpo
amargam a língua dos que guardam
lembranças, angústias e adágios
enquanto a boca do mundo boceja,
outro corpo espera a bala que indeseja

30/03/2017

VOCÊ E EU PROFUNDOS



não me ame demais
eu preciso de livre viver
me ame apenas
até onde pode ser
não me queira mais
do que eu me tenho
não me deixe sem mim
preciso-me até o fim
aliás, somos dois
nunca um é demais
então se deseje mais
do que eu e você juntos
estaremos inteiros e justos
consigo e comigo
você e eu profundos 

NIMBO



mesmo que seja por receio
de manchar o teu nimbo
fervo por dentro e te lambo
os dentes da alma que te tranca
e por puro respeito arrombo
a pesada porta que comportas;
se assim profano tua casta
há de ser engano esse tal paraíso
pois o acaso nos legará ao limbo

ABSTRATO


quero desse absurdo
a tua flor mais remota
da palidez dessa dor
toda possível derrota
quero como abstrato
tua cor estranha inexata
e que o cheiro dessa realidade
até um cão faminto a despreze
e a faca extrema da beleza
doa e sangre em quem se preza

28/03/2017

UMA MANHÃ ALVA E JACTA


eles escaparão pelas frestas, pelos ralos
pelos becos da noite, pelas bocas de lobo
e dos caixas como autênticos caxias
pelos tantos e quanto negarem
eles ainda se acharão grandes, apesar das grades
e pousarão com suas faces opalescentes
como os melhores ímpios ainda mais limpos
irão beber do mesmo sangue nosso
comer nossa carne nos deixando ossos
e farão nascer uma manhã alva e jacta 
como se nos coubessem todas as tempestades
e de nada soubéssemos ainda que tarde

05/03/2017

PASSEIO MATINAL


os homens passam
com suas mulheres tristes
marcham solenes
como quem resiste
ao sol da derradeira manhã
pesam em seus corpos
suas caras invisíveis
às suas mulheres trastes
desses homens impassíveis
passageiros das novas ilusões
pasmam em vão, se revoltam
os homens com toda derrota
hão de passar desta manhã
para a noite ultimada

23/02/2017

INCITATUS


incitatus
pode ser eu ou você
qualquer um que respira
anda e defeca livremente
pode estar nas ruas 
ou trancado nos escritórios
prezamos com louvor
nosso incitatus
protegemos dos olhos grandes
e daqueles que querem nos montar
conduzimos disfarçados e silentes
nosso incitatus
para onde for mais seguro
manter seu status
nos tornamos parecidos com ele
nosso rosto com seu sorrirso duro
o encontramos nos altos postos governamentais 
e nas favelas necessárias 
de nossas cidades ornamentais
incitatus, ó incitatus
qual de nós é mais tu!

19/02/2017

PENDULAR



vou e volto para mim mesmo
caminhos há que desinvento
atalhos por onde me encontro
às avessas de mim mesmo outro
vou e volto por vezes sem destino
sem o desatino do desencanto
se estou a um canto ou ao centro
de mim mesmo após outro
vou e volto sem tralhas no coração
quase limpo do que me penso
menos estreito mais por extenso
assim pendular de outros a mim mesmo

16/02/2017

POENOSSO DE CADA DIA Nº 103


um corpo abandonado
na multidão de mim

será apenas o princípio

do que não tem fim?

05/02/2017

O CORPO DA PALAVRA



a saliva das palavras
não umedece as papilas do mundo
nem distrai as pupilas dilatadas
por alguma beleza nenhuma
os braços e as pernas das palavras
não alcançam os céus do mundo
onde os empoderados entram no cio
se coração houvesse nas palavras
todo sentimento ou mesmo lágrimas
conteriam os dilúvios que engolem o mundo
o que há mais de corpo na palavra
senão sua parte íntima - o sentido

14/01/2017

A NAVE VÃ


perder-se logo pela manhã
ou por um século
nada demais, pois que é vã
a nave de se querer ser
achar-se entre os astros da alma
que tudo são tem desvão
perder-se é nada ter de perdição
no chão movediço das certezas
estender a finissima pele de ser
pois que deve ser triste
o incapaz de nunca se perder

VOZES DA VIDA


aos prantos e barrancos
a vida reverbera o espanto
nos milímetros de gente
em tantos metros de ninguém
pelas ruas agravam tua voz essas vozes
pelas escadas e ladeiras se espalham
nas esquinas rasgam gargantas e ladram
de dentro de todos os pulmões
como roubassem de todas as vozes
o feroz das palavras

AMANHECIDO


o dia
é um edifício de varandas fáceis
abertas para o rócio da vida

a arquitetura do silêncio
sobre tua espinha como chumbo
se gasta no esmeril do mundo

UMA NATUREZA


te saber assim: amadurecido fruto
desfolhado tronco, sabes de mim

lavo as mãos para tocar no infinito
esgarço teu mito