14/01/2017

A NAVE VÃ


perder-se logo pela manhã
ou por um século
nada demais, pois que é vã
a nave de se querer ser
achar-se entre os astros da alma
que tudo são tem desvão
perder-se é nada ter de perdição
no chão movediço das certezas
estender a finissima pele de ser
pois que deve ser triste
o incapaz de nunca se perder

VOZES DA VIDA


aos prantos e barrancos
a vida reverbera o espanto
nos milímetros de gente
em tantos metros de ninguém
pelas ruas agravam tua voz essas vozes
pelas escadas e ladeiras se espalham
nas esquinas rasgam gargantas e ladram
de dentro de todos os pulmões
como roubassem de todas as vozes
o feroz das palavras

AMANHECIDO


o dia
é um edifício de varandas fáceis
abertas para o rócio da vida

a arquitetura do silêncio
sobre tua espinha como chumbo
se gasta no esmeril do mundo

UMA NATUREZA


te saber assim: amadurecido fruto
desfolhado tronco, sabes de mim

lavo as mãos para tocar no infinito
esgarço teu mito