03/12/2017

ALGO A MAIS


além dessa tangível
montanha que recrio
a cada momento
essa que removo
com minhas mãos de alento
no esplendor que me alarga em portas
além das vestes de pele e razão                              
algo a mais de tudo
porque nada não há

25/11/2017

CONCERTO


rejo a minha ópera
a  que toca no fundo dos teus olhos
cada instrumento de mim
tem uma nota do que somos
e tocam sinfonias dissonantes
silêncios de eras harmônicas
e isso é só uma parte de mim
do que ainda me falta tocar
dessa única música
que somos eu e tu

10/11/2017

É POSSÍVEL

                  
                   A um filho amado 

é possível que morrer seja apenas um estar
mais atrás ou à frente de outra flor
essa flor que fiz crescer
como cresces agora noutro chão
é possível que o nunca mais
seja um rasgo no frágil tecido do ficar
teu ser se põe como o sol
e imerge na fonte límpida do infinito
onde um dia lá estaremos benditos

21/10/2017

PASSEIO ÍNTIMO


tiro as roupas e solto a alma
pelas ruas passeio invisível
não me alcança a beleza fugaz dos olhares
quase luz sobre os apagares dos quartos
entre os andares dos passantes               
nu contemplo assaz os sem tempo
os que buscam seus cais, porto
é tudo o que vivem mesmo que mortos
pelo cansaço de estarem fartos
tiro as roupas de Deus e fico íntimo
do que sou e tenho em mim






08/10/2017

ATÉ AMANHÃ


nunca mais vou dormir
nem acordar
tomei todas as pílulas
cumpri todas as cláusulas
só para não dizer
até amanhã
não há mais vagas
dentro das pessoas
nem nos corredores frios da razão
e disseram que seria diferente
se podia ser tudo até os dentes
só para não dizerem mais
até amanhã
mas tudo ficou assim tão igual
como certo e vazio e normal
esconderam nossas feridas
dentro dos livros dos arquivos bestiais
rasgadas à luz do dia nossas fantasias
e tudo mais ademais é perfumaria
apesar de hoje até amanhã



05/10/2017

AS DOBRAS DE OUTUBRO


desdobro papéis
o pano úmido dos instantes           
amarelados, com rascunhos imprecisos:
desalinhos da alma, êxtases obscuros
vestígios de pegadas leves pela face
do papel onde fui escrito e agora me leio;
meneia a cabeça
um velho carrancudo a soltar miasmas
- o tempo
que não tem passatempo
sempre ocupado, fia e desfia
indefinidamente o véu dos enganos