08/09/2017

OCO DE MIM


circunscrito ao que vem do acaso
corpo e alma não se apreçam
quase nada mais enternece
os convalescentes do que não se sente
vagando no oco de mim por aí
alguns dias a mais risos e socos
noutros amenos corro e me abraço
abro janelas como parênteses
na escritura perversa do mundo
cumpro belezas e me anoiteço

31/08/2017

PASSANDO A LIMPO


a sala está suja as ruas as praças
o chão dos palácios estão sujos
os olhos do vizinho e seu bom-dia sujo
as roupas no varal a razão de tudo 
o coração e as unhas sujas
o pão os pratos e as palavras
os versos perfeitos
os dentes e a garras do mundo
os vagões da humanidade estão sujos
minha convicção da vida
meus passos futuros
o que resta de esperança
estão soberanamente sujos
as cores e a pele lisa da manhã
a ferida invisível de cada corpo
a cara deslavada está suja
a couraça e o lenço dos homens
tão sujos escondem vícios
nas mãos que lavam severamente
meus escrúpulos apesar de limpos
varro pra debaixo de mim
o amor que se arrasta pelas calçadas
de tão sujo manchou os muros
o rotundo da alma e suas fissuras
sujou o papel o poema e a flor

25/08/2017

COLAPSO


qual lâmina mais poderosa
a palavra
guarda em cortes as fatias do mundo
seus tendões e músculos e nervos
escorrem sangue por debaixo das portas
pelas rugas do rosto, pelos cantos da boca
e ninguém vê, e tudo está revisto
e pacifica meu monstro no leito da alma
me empurra pra dentro da vida afora 
quase não sei de mim sendo o que estou
irrequieto desobedeço a palavra de ordem
aos gritos e silente
mais ridículo e dissidente
com o que ainda pode ser suportável

17/08/2017

AO MODO SUBJUNTIVO


sinto-me ao modo subjuntivo
como se tivesse adormecido
entre sonhos imponderáveis
sem motivos pra um sujeito crível
já que mora em mim um eu adjeto
de verbos, carne e outros apetrechos
que me asseveram no modo indicativo
como uma nuvem ou sombra aparente
me fizessem mais substantivo
a me esconder do imperfeito
de só existir ao modo imperativo

VASTO


entre os suspiros do quarto
a noite se deita ao meu lado
nada em mim é mais vasto
nem ausências me completam
limpo de recatos, lava-me o tempo
ergo horrores ao punhal do absoluto
quem sabe os fôlegos da manhã
me acordem novamente servil
dos gestos repassados e perecíveis
agora vasto, a solidão tão certa de mim

06/08/2017

MARGINAL


à margem converso em silêncio
com os que estranham o mundo
e pergunto de que branco é a paz?
de que lado o nome dói mais?
se elemento, indivíduo ou meliante
à margem há um mar aguardando
em silêncio que outra onda cresça
para aguar os ouvidos do mundo
da melodia que se ouve à margem
dos que assentam trilhos na aragem