24/06/2017

POR ALGUMAS MOEDAS



se pensas nos confins do mundo que criaste
os loucos também pensam, pelo mesmo fim
nada altera a girândola do tempo
nem o lampejar das luzes que te negam
decifrar os escuros soletrando nomes
nos pátios sujos onde sonham os loucos
retrocedes ao estacionário pântano da razão
lá se queima viva a loucura por algumas moedas
sob a monotonia das pessoas sérias
com seus rostos de caverna
te fazem existir em qualquer ser que te couber

O RELÓGIO (SEM TEMPO)


o relógio de parede
perdeu a hora em lugar algum
cravou seus ponteiros
no coração por longo tempo
agora tudo se move
contemplo os despedaços do tempo
pendurados na parede que não para
me pede as horas
como quem sem tempo implora
ao dia ou à noite um corpo uma alma
de relógio embora

EM ALGUMA LUA


em alguma lua há lugar
para os amantes do amor
há uma rua, um banco de jardim
em algum lugar da noite
há luas que soluçam por um olhar
que se aluga para ver o luar
de qualquer canto ou lamento
em alguma lua há um homem absorto
lendo noticias do mundo da lua
e outro homem mijando alegrias
sobre os cães do mundo de lá
falta alguma coisa de lua num lugar
de pessoas que já não sabem se aluar

10/06/2017

ESPERANDO NUM PORTO



te esperam ainda num porto em brumas
o crime que não cometeste
o lado indomado de tua alma
o beijo recusado, a perfídia dos gestos
palavras impronunciáveis te esperam
as mãos trêmulas nas ancas da vida
a denunciarem o sangue dos teus mortos
o que não cumpriste e o que deste em vão
as angústias espalhadas no tempo e o amor
no invólucro das coisas sem nexo
te esperam em algum lugar sem nome, sem espaço
o prazer adiado, a véspera das alegrias
acauteladas, todo remorso movente
por dentro da crueldade de te quereres pó
te esperam num porto invisível ainda as emoções
um jarro com flores, uma taça de vinho sobre a mesa
a mesma cama que suporta teu corpo banido de outro
teus pavores com a sandice urbana te esperam
em pé em alguma esquina da rua onde teus pés já não alcançam   
tudo o que te falta, o que  perdeste, as sobras
nos teus ombros em sonhos ainda te esperam
tudo o que deixaste de fazer, teu ser tantas vezes
rascunhado nas noites de vazios e cinza, teus segredos dobrados
num papel que o vento os desprezou pelos cantos da casa
tuas máscaras jogadas no lixo do mundo
tudo nos espera com a alma que desespera
num porto onde a vida sempre atraca para o entrevero

TRANSPIRAÇÃO


não encontro os dedos das ideias
suponho que se vai pelo ralo do dia
algo de confuso a boiar como estrume
ainda fresco, decerto: verso sem lume
nesse escuro escarro toda possível emoção
desaperto mais o nó do peito até nascer
uma flor onde antes havia espanto
eis que se me despe a primeira palavra
tão rápida e rija como uma pedra
na janela duvidosa da utopia
transpiro bastante para chegar
ao controverso território da poesia
mas solene com a alegria e a dor
de quem rasga em si mesmo um pouco
daquilo que nunca se sabe a pele nem a cor

REINO


acordar pássaro
sobre a floresta tenebrosa
dos homens, sol nos olhos
água fresca rindo do tédio
fazer cócegas e graça nos pés
da vida que passa quanto destroça
comer cogumelos como palavras
aos poucos gastar teu gosto na boca
ter manhãs na claridade do quintal
onde nos plantamos sementes
para outro alimento, um jeito de ser
mineral até tornar vegetal
o animal que nos persegue