21/10/2017

PASSEIO ÍNTIMO


tiro as roupas e solto a alma
pelas ruas passeio invisível
não me alcança a beleza fugaz dos olhares
quase luz sobre os apagares dos quartos
entre os andares dos passantes               
nu contemplo assaz os sem tempo
os que buscam seus cais, porto
é tudo o que vivem mesmo que mortos
pelo cansaço de estarem fartos
tiro as roupas de Deus e fico íntimo
do que sou e tenho em mim






08/10/2017

ATÉ AMANHÃ


nunca mais vou dormir
nem acordar
tomei todas as pílulas
cumpri todas as cláusulas
só para não dizer
até amanhã
não há mais vagas
dentro das pessoas
nem nos corredores frios da razão
e disseram que seria diferente
se podia ser tudo até os dentes
só para não dizerem mais
até amanhã
mas tudo ficou assim tão igual
como certo e vazio e normal
esconderam nossas feridas
dentro dos livros dos arquivos bestiais
rasgadas à luz do dia nossas fantasias
e tudo mais ademais é perfumaria
apesar de hoje até amanhã



05/10/2017

AS DOBRAS DE OUTUBRO


desdobro papéis
o pano úmido dos instantes           
amarelados, com rascunhos imprecisos:
desalinhos da alma, êxtases obscuros
vestígios de pegadas leves pela face
do papel onde fui escrito e agora me leio;
meneia a cabeça
um velho carrancudo a soltar miasmas
- o tempo
que não tem passatempo
sempre ocupado, fia e desfia
indefinidamente o véu dos enganos

01/10/2017

ESSE TAO DE MIM


decidi me seguir
depois dos espelhos
dos velhos conselhos
dos mais vivos cheios de tédio
depois dos livros fiquei livre
me fiz meu próprio caminho
minha verdade minha luz espalho
no ar que respiro
no prato em que como
na cama que me acolhe
neste corpo que me demoro
todo dia pronto a me vencer
a me seguir e ver claro
o estranho escuro ancestral
depois das sagradas escrituras
descobri-me criador da minha criatura
agora querer tudo o que não quis
ser tudo o que não fiz
e assim todo em mim
me seguir no princípio sem fim

25/09/2017

TEOR


o que tenho em mim
não tem pele nem musgo
nem selvagem nem sacro
nem gruda no corpo
não me enruga o rosto
me trespassa e não mata
o que tenho em mim
não quebra minhas costelas
mas meus conceitos e regras
não me esfola nem resfólega
me entorpece como quem tropeça
nalguma coisa estranha
o que tenho em mim
não me atormenta a alma
me enseja uma revolta de paz
algo de que não sei e desejo mais
talvez fique do lado de lá do infinito
ou aqui bem perto dentro minto

08/09/2017

OCO DE MIM


circunscrito ao que vem do acaso
corpo e alma não se apreçam
quase nada mais enternece
os convalescentes do que não se sente
vagando no oco de mim por aí
alguns dias a mais risos e socos
noutros amenos corro e me abraço
abro janelas como parênteses
na escritura perversa do mundo
cumpro belezas e me anoiteço

31/08/2017

PASSANDO A LIMPO


a sala está suja as ruas as praças
o chão dos palácios estão sujos
os olhos do vizinho e seu bom-dia sujo
as roupas no varal a razão de tudo 
o coração e as unhas sujas
o pão os pratos e as palavras
os versos perfeitos
os dentes e a garras do mundo
os vagões da humanidade estão sujos
minha convicção da vida
meus passos futuros
o que resta de esperança
estão soberanamente sujos
as cores e a pele lisa da manhã
a ferida invisível de cada corpo
a cara deslavada está suja
a couraça e o lenço dos homens
tão sujos escondem vícios
nas mãos que lavam severamente
meus escrúpulos apesar de limpos
varro pra debaixo de mim
o amor que se arrasta pelas calçadas
de tão sujo manchou os muros
o rotundo da alma e suas fissuras
sujou o papel o poema e a flor

25/08/2017

COLAPSO


qual lâmina mais poderosa
a palavra
guarda em cortes as fatias do mundo
seus tendões e músculos e nervos
escorrem sangue por debaixo das portas
pelas rugas do rosto, pelos cantos da boca
e ninguém vê, e tudo está revisto
e pacifica meu monstro no leito da alma
me empurra pra dentro da vida afora 
quase não sei de mim sendo o que estou
irrequieto desobedeço a palavra de ordem
aos gritos e silente
mais ridículo e dissidente
com o que ainda pode ser suportável

17/08/2017

AO MODO SUBJUNTIVO


sinto-me ao modo subjuntivo
como se tivesse adormecido
entre sonhos imponderáveis
sem motivos pra um sujeito crível
já que mora em mim um eu adjeto
de verbos, carne e outros apetrechos
que me asseveram no modo indicativo
como uma nuvem ou sombra aparente
me fizessem mais substantivo
a me esconder do imperfeito
de só existir ao modo imperativo

VASTO


entre os suspiros do quarto
a noite se deita ao meu lado
nada em mim é mais vasto
nem ausências me completam
limpo de recatos, lava-me o tempo
ergo horrores ao punhal do absoluto
quem sabe os fôlegos da manhã
me acordem novamente servil
dos gestos repassados e perecíveis
agora vasto, a solidão tão certa de mim

06/08/2017

MARGINAL


à margem converso em silêncio
com os que estranham o mundo
e pergunto de que branco é a paz?
de que lado o nome dói mais?
se elemento, indivíduo ou meliante
à margem há um mar aguardando
em silêncio que outra onda cresça
para aguar os ouvidos do mundo
da melodia que se ouve à margem
dos que assentam trilhos na aragem

29/07/2017

INSULAR


pessoas cercadas de mundo
por todos os lados
e cada um só um;
conforme os tolos dados
somos muitos em cada um
sob o mesmo sol
que se opõe a quem só
isola seu mundo de todos
os fardos que a vida entrega
ao largo do mundo
que só cada um refrega

17/07/2017

COMA


como se fosse a fome
o único jeito de saciar a vida
e a realidade um corpo sem tripas
no dia que nunca amanheceu
como se fosse qualquer coisa
pessoas e sonhos na lama do existir
a invisível serpente da mentira
travestida de pronta esperança
como se fosse  ainda um coração
a bater por nada na cara de ninguém
e cada um a ver seu próprio cadáver
passear domingo na avenida Paulista


POENOSSO DE CADA DIA nº105


uma vida pra viver
uma morte pra morrer

só isso?

ah tenho outro
compromisso!

POENOSSO DE CADA DIA nº 104


finalmente
me encontrei
o outro

e se ainda
pareço comigo
é outro

09/07/2017

COPO CHEIO


o copo cheio de um homem vago
enche o que cabe no seu estomago
o pouco de tudo que lhe acabe
assim ele faz o caminho de Santiago
visita túmulos e lugares sagrados
se enche de fé até os intestinos
inventa odores paladares destinos
depois entorna o mesmo copo cheio
pra não se sentir um homem vago
se desculpa com gestos e agrados
sem ver que o tempo o traga
e deixa de novo o mesmo copo cheio
para o homem que não se pensa vago

01/07/2017

SEM PALAVRAS


não ouço mais a tal voz interior
os mortos não se levantam
nada se sabe do bem e do mal
o corpo já não fala
o silêncio a nada se presta
é ficar vivo mas sem existir
não me subordino às orações
não desprezo mais os discursos vazios
tudo fica suave e frio nas mãos
e na rudez do pensamento
o mundo paralisa sem palavras
a inação do verbo cruza os braços
até de Deus e dos demandados
nada revela a nudez do infinito
e a poesia é uma estátua entre ruínas
com bêbado cercado de cães no entorno
e este poema?

LONGE



longe, muito longe
da pele que me deste
livre das vestes do teu monge
sem lugar nem nome, mais longe
dos que cavam seus buracos existenciais
longe, vagante, vidente
do horizonte sinuoso da beleza
do espaço sem fundura que me preenche
o saco da alma na antessala do tempo
onde alguém sempre espera um abraço
que o reconheça entre esses troços
e retraços de gente
longe, bem longe de onde estou
numa lonjura adstringente
aberto ao poro raro do que me sente

CARNE DE PESCOÇO



quero palavras argilosas
versos de pedra e cal
qual substância em bronze
façam o sonho mais metal
aos desencantados e quejandos
quero palavras ósseas
como a dura carne de pescoço
façam do verso visgo e caroço
a crescer por dentro da existência
ferrosa de nossa condição
num delírio de alma e alvoroço

24/06/2017

POR ALGUMAS MOEDAS



se pensas nos confins do mundo que criaste
os loucos também pensam, pelo mesmo fim
nada altera a girândola do tempo
nem o lampejar das luzes que te negam
decifrar os escuros soletrando nomes
nos pátios sujos onde sonham os loucos
retrocedes ao estacionário pântano da razão
lá se queima viva a loucura por algumas moedas
sob a monotonia das pessoas sérias
com seus rostos de caverna
te fazem existir em qualquer ser que te couber

O RELÓGIO (SEM TEMPO)


o relógio de parede
perdeu a hora em lugar algum
cravou seus ponteiros
no coração por longo tempo
agora tudo se move
contemplo os despedaços do tempo
pendurados na parede que não para
me pede as horas
como quem sem tempo implora
ao dia ou à noite um corpo uma alma
de relógio embora

EM ALGUMA LUA


em alguma lua há lugar
para os amantes do amor
há uma rua, um banco de jardim
em algum lugar da noite
há luas que soluçam por um olhar
que se aluga para ver o luar
de qualquer canto ou lamento
em alguma lua há um homem absorto
lendo noticias do mundo da lua
e outro homem mijando alegrias
sobre os cães do mundo de lá
falta alguma coisa de lua num lugar
de pessoas que já não sabem se aluar

10/06/2017

ESPERANDO NUM PORTO



te esperam ainda num porto em brumas
o crime que não cometeste
o lado indomado de tua alma
o beijo recusado, a perfídia dos gestos
palavras impronunciáveis te esperam
as mãos trêmulas nas ancas da vida
a denunciarem o sangue dos teus mortos
o que não cumpriste e o que deste em vão
as angústias espalhadas no tempo e o amor
no invólucro das coisas sem nexo
te esperam em algum lugar sem nome, sem espaço
o prazer adiado, a véspera das alegrias
acauteladas, todo remorso movente
por dentro da crueldade de te quereres pó
te esperam num porto invisível ainda as emoções
um jarro com flores, uma taça de vinho sobre a mesa
a mesma cama que suporta teu corpo banido de outro
teus pavores com a sandice urbana te esperam
em pé em alguma esquina da rua onde teus pés já não alcançam   
tudo o que te falta, o que  perdeste, as sobras
nos teus ombros em sonhos ainda te esperam
tudo o que deixaste de fazer, teu ser tantas vezes
rascunhado nas noites de vazios e cinza, teus segredos dobrados
num papel que o vento os desprezou pelos cantos da casa
tuas máscaras jogadas no lixo do mundo
tudo nos espera com a alma que desespera
num porto onde a vida sempre atraca para o entrevero

TRANSPIRAÇÃO


não encontro os dedos das ideias
suponho que se vai pelo ralo do dia
algo de confuso a boiar como estrume
ainda fresco, decerto: verso sem lume
nesse escuro escarro toda possível emoção
desaperto mais o nó do peito até nascer
uma flor onde antes havia espanto
eis que se me despe a primeira palavra
tão rápida e rija como uma pedra
na janela duvidosa da utopia
transpiro bastante para chegar
ao controverso território da poesia
mas solene com a alegria e a dor
de quem rasga em si mesmo um pouco
daquilo que nunca se sabe a pele nem a cor

REINO


acordar pássaro
sobre a floresta tenebrosa
dos homens, sol nos olhos
água fresca rindo do tédio
fazer cócegas e graça nos pés
da vida que passa quanto destroça
comer cogumelos como palavras
aos poucos gastar teu gosto na boca
ter manhãs na claridade do quintal
onde nos plantamos sementes
para outro alimento, um jeito de ser
mineral até tornar vegetal
o animal que nos persegue

28/05/2017

DESPOJOS


o que restamos nada mais
é do que nos inventaram
velha seringa mantém viva
esta sangria que se desata nas manhãs
e esta língua retesada sobre a lápide fria

         quanto pesa o silêncio agora?
         e para onde a palavra presa alcança?

o que restamos é algo de indefinível
nas lentes e cadinhos da vida
e tentamos tantas vezes o ser
inconsequente e rude e de todo impossível

o que restamos locupleta víboras
rubras de um tom quase humano
quase largo na garganta da vida
e corrói esse manto roto
de gozos e desejos que vos oferto

MEU MELHOR INIMIGO


durmo com meu melhor inimigo
abraço-o com meu último apreço
de saber em mim o que nunca digo
cuido dele para estar sempre presente
aqui ao lado distante do que sinto
perto dele como de mim sou ambíguo
um seduz o outro como fossem amigos
se me disfarço nele, ele logo se refaz
alheio a mim mas sempre comigo

06/05/2017

PARALELOS E MERIDIANOS



passo rente aos meus subterrâneos
sem tocar a muralha do mundo
meu fundamento sem paralelos
destoa dos meridianos da vida
deixo-me ao largo da misericórdia
cruzo ruas e chego ao fim
algo de circular na vida pegajosa
ao corpo como a alma ao centro
desta cidade terrível e caolha
corto a linha que me liga ao equador
das sensações, e há ecos na dor
daqueles que cospem no chão das virtudes
planos não, nem retas me levam
à superfície dos meus subterrâneos
sigo sob o frio perfurante do anos
e não me vejo pender do fio do acaso
viver tem paralelos e meridianos

SELVAGEM



os animais que se tocam se matam
pelo mesmo amor dos eternos
como os que falam verdades
e estragam o céu com seus podres
os animais que falam, calam mais
outros animais entre selvagens
que correm todos os dias
apressados atrás da vida e vivem
como se não perdessem mais o de menos
os animais animam os que morrem
como o bom ladrão, antes selvagem

O CAVALEIRO



no quarto luxuoso das palavras
dormem sonhos, um copo de sangue
e teu último nome
se não sei mais do canto
enredo árias rudes de alguma paixão
cavaleiro das noites sem rosto
me queres mais corte da faca que fui,
com as agulhas do amor costuras mágoas
por isso cavalgo os atalhos do teu rumo
e não te sigo, nem me prossegues

07/04/2017

O QUE SE GUARDA



as balas guardadas no teu corpo
agradam aos que guardam dinheiro 
e tudo o que não se sente nem se vê
os corpos guardados de balas
se acumulam como tesouros
dos que expelem rancores
as balas guardadas no teu corpo
amargam a língua dos que guardam
lembranças, angústias e adágios
enquanto a boca do mundo boceja,
outro corpo espera a bala que indeseja

30/03/2017

VOCÊ E EU PROFUNDOS



não me ame demais
eu preciso de livre viver
me ame apenas
até onde pode ser
não me queira mais
do que eu me tenho
não me deixe sem mim
preciso-me até o fim
aliás, somos dois
nunca um é demais
então se deseje mais
do que eu e você juntos
estaremos inteiros e justos
consigo e comigo
você e eu profundos 

NIMBO



mesmo que seja por receio
de manchar o teu nimbo
fervo por dentro e te lambo
os dentes da alma que te tranca
e por puro respeito arrombo
a pesada porta que comportas;
se assim profano tua casta
há de ser engano esse tal paraíso
pois o acaso nos legará ao limbo

ABSTRATO


quero desse absurdo
a tua flor mais remota
da palidez dessa dor
toda possível derrota
quero como abstrato
tua cor estranha inexata
e que o cheiro dessa realidade
até um cão faminto a despreze
e a faca extrema da beleza
doa e sangre em quem se preza

28/03/2017

UMA MANHÃ ALVA E JACTA


eles escaparão pelas frestas, pelos ralos
pelos becos da noite, pelas bocas de lobo
e dos caixas como autênticos caxias
pelos tantos e quanto negarem
eles ainda se acharão grandes, apesar das grades
e pousarão com suas faces opalescentes
como os melhores ímpios ainda mais limpos
irão beber do mesmo sangue nosso
comer nossa carne nos deixando ossos
e farão nascer uma manhã alva e jacta 
como se nos coubessem todas as tempestades
e de nada soubéssemos ainda que tarde

05/03/2017

PASSEIO MATINAL


os homens passam
com suas mulheres tristes
marcham solenes
como quem resiste
ao sol da derradeira manhã
pesam em seus corpos
suas caras invisíveis
às suas mulheres trastes
desses homens impassíveis
passageiros das novas ilusões
pasmam em vão, se revoltam
os homens com toda derrota
hão de passar desta manhã
para a noite ultimada

23/02/2017

INCITATUS


incitatus
pode ser eu ou você
qualquer um que respira
anda e defeca livremente
pode estar nas ruas 
ou trancado nos escritórios
prezamos com louvor
nosso incitatus
protegemos dos olhos grandes
e daqueles que querem nos montar
conduzimos disfarçados e silentes
nosso incitatus
para onde for mais seguro
manter seu status
nos tornamos parecidos com ele
nosso rosto com seu sorrirso duro
o encontramos nos altos postos governamentais 
e nas favelas necessárias 
de nossas cidades ornamentais
incitatus, ó incitatus
qual de nós é mais tu!

19/02/2017

PENDULAR



vou e volto para mim mesmo
caminhos há que desinvento
atalhos por onde me encontro
às avessas de mim mesmo outro
vou e volto por vezes sem destino
sem o desatino do desencanto
se estou a um canto ou ao centro
de mim mesmo após outro
vou e volto sem tralhas no coração
quase limpo do que me penso
menos estreito mais por extenso
assim pendular de outros a mim mesmo

16/02/2017

POENOSSO DE CADA DIA Nº 103


um corpo abandonado
na multidão de mim

será apenas o princípio

do que não tem fim?

05/02/2017

O CORPO DA PALAVRA



a saliva das palavras
não umedece as papilas do mundo
nem distrai as pupilas dilatadas
por alguma beleza nenhuma
os braços e as pernas das palavras
não alcançam os céus do mundo
onde os empoderados entram no cio
se coração houvesse nas palavras
todo sentimento ou mesmo lágrimas
conteriam os dilúvios que engolem o mundo
o que há mais de corpo na palavra
senão sua parte íntima - o sentido

14/01/2017

A NAVE VÃ


perder-se logo pela manhã
ou por um século
nada demais, pois que é vã
a nave de se querer ser
achar-se entre os astros da alma
que tudo são tem desvão
perder-se é nada ter de perdição
no chão movediço das certezas
estender a finissima pele de ser
pois que deve ser triste
o incapaz de nunca se perder

VOZES DA VIDA


aos prantos e barrancos
a vida reverbera o espanto
nos milímetros de gente
em tantos metros de ninguém
pelas ruas agravam tua voz essas vozes
pelas escadas e ladeiras se espalham
nas esquinas rasgam gargantas e ladram
de dentro de todos os pulmões
como roubassem de todas as vozes
o feroz das palavras

AMANHECIDO


o dia
é um edifício de varandas fáceis
abertas para o rócio da vida

a arquitetura do silêncio
sobre tua espinha como chumbo
se gasta no esmeril do mundo

UMA NATUREZA


te saber assim: amadurecido fruto
desfolhado tronco, sabes de mim

lavo as mãos para tocar no infinito
esgarço teu mito