28/05/2017

DESPOJOS


o que restamos nada mais
é do que nos inventaram
velha seringa mantém viva
esta sangria que se desata nas manhãs
e esta língua retesada sobre a lápide fria

         quanto pesa o silêncio agora?
         e para onde a palavra presa alcança?

o que restamos é algo de indefinível
nas lentes e cadinhos da vida
e tentamos tantas vezes o ser
inconsequente e rude e de todo impossível

o que restamos locupleta víboras
rubras de um tom quase humano
quase largo na garganta da vida
e corrói esse manto roto
de gozos e desejos que vos oferto

MEU MELHOR INIMIGO


durmo com meu melhor inimigo
abraço-o com meu último apreço
de saber em mim o que nunca digo
cuido dele para estar sempre presente
aqui ao lado distante do que sinto
perto dele como de mim sou ambíguo
um seduz o outro como fossem amigos
se me disfarço nele, ele logo se refaz
alheio a mim mas sempre comigo

06/05/2017

PARALELOS E MERIDIANOS



passo rente aos meus subterrâneos
sem tocar a muralha do mundo
meu fundamento sem paralelos
destoa dos meridianos da vida
deixo-me ao largo da misericórdia
cruzo ruas e chego ao fim
algo de circular na vida pegajosa
ao corpo como a alma ao centro
desta cidade terrível e caolha
corto a linha que me liga ao equador
das sensações, e há ecos na dor
daqueles que cospem no chão das virtudes
planos não, nem retas me levam
à superfície dos meus subterrâneos
sigo sob o frio perfurante do anos
e não me vejo pender do fio do acaso
viver tem paralelos e meridianos

SELVAGEM



os animais que se tocam se matam
pelo mesmo amor dos eternos
como os que falam verdades
e estragam o céu com seus podres
os animais que falam, calam mais
outros animais entre selvagens
que correm todos os dias
apressados atrás da vida e vivem
como se não perdessem mais o de menos
os animais animam os que morrem
como o bom ladrão, antes selvagem

O CAVALEIRO



no quarto luxuoso das palavras
dormem sonhos, um copo de sangue
e teu último nome
se não sei mais do canto
enredo árias rudes de alguma paixão
cavaleiro das noites sem rosto
me queres mais corte da faca que fui,
com as agulhas do amor costuras mágoas
por isso cavalgo os atalhos do teu rumo
e não te sigo, nem me prossegues