29/07/2017

INSULAR


pessoas cercadas de mundo
por todos os lados
e cada um só um;
conforme os tolos dados
somos muitos em cada um
sob o mesmo sol
que se opõe a quem só
isola seu mundo de todos
os fardos que a vida entrega
ao largo do mundo
que só cada um refrega

17/07/2017

COMA


como se fosse a fome
o único jeito de saciar a vida
e a realidade um corpo sem tripas
no dia que nunca amanheceu
como se fosse qualquer coisa
pessoas e sonhos na lama do existir
a invisível serpente da mentira
travestida de pronta esperança
como se fosse  ainda um coração
a bater por nada na cara de ninguém
e cada um a ver seu próprio cadáver
passear domingo na avenida Paulista


POENOSSO DE CADA DIA nº105


uma vida pra viver
uma morte pra morrer

só isso?

ah tenho outro
compromisso!

POENOSSO DE CADA DIA nº 104


finalmente
me encontrei
o outro

e se ainda
pareço comigo
é outro

09/07/2017

COPO CHEIO


o copo cheio de um homem vago
enche o que cabe no seu estomago
o pouco de tudo que lhe acabe
assim ele faz o caminho de Santiago
visita túmulos e lugares sagrados
se enche de fé até os intestinos
inventa odores paladares destinos
depois entorna o mesmo copo cheio
pra não se sentir um homem vago
se desculpa com gestos e agrados
sem ver que o tempo o traga
e deixa de novo o mesmo copo cheio
para o homem que não se pensa vago

01/07/2017

SEM PALAVRAS


não ouço mais a tal voz interior
os mortos não se levantam
nada se sabe do bem e do mal
o corpo já não fala
o silêncio a nada se presta
é ficar vivo mas sem existir
não me subordino às orações
não desprezo mais os discursos vazios
tudo fica suave e frio nas mãos
e na rudez do pensamento
o mundo paralisa sem palavras
a inação do verbo cruza os braços
até de Deus e dos demandados
nada revela a nudez do infinito
e a poesia é uma estátua entre ruínas
com bêbado cercado de cães no entorno
e este poema?

LONGE



longe, muito longe
da pele que me deste
livre das vestes do teu monge
sem lugar nem nome, mais longe
dos que cavam seus buracos existenciais
longe, vagante, vidente
do horizonte sinuoso da beleza
do espaço sem fundura que me preenche
o saco da alma na antessala do tempo
onde alguém sempre espera um abraço
que o reconheça entre esses troços
e retraços de gente
longe, bem longe de onde estou
numa lonjura adstringente
aberto ao poro raro do que me sente

CARNE DE PESCOÇO



quero palavras argilosas
versos de pedra e cal
qual substância em bronze
façam o sonho mais metal
aos desencantados e quejandos
quero palavras ósseas
como a dura carne de pescoço
façam do verso visgo e caroço
a crescer por dentro da existência
ferrosa de nossa condição
num delírio de alma e alvoroço